quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Meu Cachorro Atahualpa (2) - Urda Klueger

(para Rafael Bomani Machado Ferreira)

Por muitos e muitos anos eu não quis ter em minha casa sequer uma planta, para não estar preocupada em quem a regaria quando fosse viajar – imaginem se passava pela minha cabeça ter um animalzinho! Então um dia... pois é, sempre tem um dia!
Passei de manhã numa agropecuária, e havia duas jaulas cheias de cachorros e cachorrinhos para serem doados. Dei uma espiada, e ele me “pescou” na hora, com seu olhinho maroto e seu rabinho que parecia um fio de lã preta abanando. Mas se eu não queria nem sequer uma planta na minha casa...
Fui embora, mas era como se não tivesse ido. Talvez aquele tenha sido um dos dias mais complicados da minha vida. Não conseguia tirar aquele bichinho da minha cabeça – e se eu ficasse com ele? Tinha lá também uma irmãzinha dele, preta e branca, e havia cachorrinhos “de raça”, mas era aquele vira-latas peludinho preto quem me cativara, e a partir do meio dia o meu pensamento já era outro: se ninguém o tivesse pegado até o final da tarde, eu iria ficar com ele. Depois de tal decisão, outra se impunha: que nome dar ao bichinho? Não podia ser um nome qualquer, e fiquei divagando entre os nomes mais bonitos que conhecia, principalmente os dos meus heróis da Literatura, e por pouco ele não veio a se chamar Capitão Rodrigo. A História se impunha, também, e a força desta minha América tão amada, e pensa de cá e pensa de lá, e cheguei em Atahualpa, o último imperador Inca, aquele que foi traiçoeiramente assassinado pelo invasor espanhol – Atahualpa nascera do amor, fora um grande imperador... sim, sim, só restava saber se eu iria ter, mesmo, o cachorrinho.
Esperei até dez para as seis para voltar à agropecuária, e descobri que TODOS os animais que estavam lá para doação, naquele dia, tinham arranjado dono e ido embora – todos menos um cachorrinho que estava abandonado lá no canto de uma jaula, abanando um rabinho que parecia um fio de lã preta do tamanho de um dedinho de bebê – foi um momento mágico, aquele, quando peguei Atahualpa no colo, embrulhei-o num florido pano vermelho e fui com ele até o carro, mostrando-lhe o que havia ali por fora e começando nossa primeira conversa:
- Olha só, Atahualpa, veja como o mundo é grande! – e fui me exibir com ele para a minha amiga Dina, perto dali.
Era seis de dezembro, dia de São Nicolau, importante dia da minha cultura, quando as crianças colocam o sapato na janela para ganhar chocolates, balas e castanhas de São Nicolau. Para mim, era como se eu tivesse botado o sapato na janela também!
Nos dias seguintes, descobri o quanto Atahualpa era fraquinho, como estava doente, com desinteria, e houve momentos em que entrei em pânico, porque o Natal se aproximava e os veterinários estavam saindo de férias e os hoteizinhos estavam lotados por causa dos feriados e eu tinha que ir para Florianópolis lançar um livro, e então Atahualpa ficou mal mesmo, e consegui um veterinário que o atendeu – e desfez toda aquela bobagem de que cachorro moderno só pode comer ração: mandou-me para casa dar-lhe arroz com frango, aos pouquinhos, para que ele não vomitasse de novo. Fui para a cozinha com o coração na mão, e quando ficou pronto aquela comida nova, ele a devorou com tal ferocidade, e ficou latindo e me olhando com tal ódio por não lhe dar tanto quanto queria, que até hoje lembro dos seus olhinhos negros tão cheios de indignação e raiva que pensei que poderiam me matar.
Aos pouquinhos, ele foi melhorando, mas foi só a 24 de dezembro, manhã de Natal, que acho que ele ficou bom. Levei-o a dar uma voltinha na calçada, e de repente ele encontrou um grande pedaço de lingüiça abandonada em algum lugar, e apoderando-se dela, rosnou para mim e mostrou-me os dentes, e fugiu com a lingüiça para debaixo de um automóvel, e lá, esbarrando no meu desespero, devorou aquela lingüiça toda num instante, deixando-me morta de preocupação, lembrando das lingüiças com veneno que gente malvada espalha por aí para matar cachorrinhos incautos. Voltei com ele para casa para poder observá-lo: se ele comera veneno, logo começaria a passar mal, e haveria que correr ao veterinário para abreviar a sua agonia, mas o dia passou e nada aconteceu.
Então, naquela noite de Natal, eu tinha que ir a duas festas, e deixei meu cachorrinho comer tanto churrasco, banha e lingüicinha quisesse, e depois disso ele nunca mais ficou doente. Faz pouco mais de três meses que está comigo – não passava de um bife, quando veio – tinha 800 gramas e um rabinho de fiapo de lã. Agora é Páscoa, e virou um rabudo de palmo e meio de rabo tão grosso quanto o meu polegar, e nesta semana estava pesando seis quilos, e desenvolvi músculos novos nos braços de tanto carregá-lo para atravessar as ruas e coisas assim. Está com cinco meses, e não imagino o quanto ainda irá crescer. Que parceria que fomos arranjar, não, Atahualpa?

Blumenau, 21 de março de 2008.

Meu Cachorro Atahualpa

(Para Bartolomeu Moreira Monteiro)


Penso que, no mundo dos cachorros, Atahualpa às vezes aparece como um cachorro exibido, como algumas crianças que viajam para a Disney e depois ficam se pavoneando na escola, cheias de importância, diante de amiguinhos que talvez só foram ao Beto Carrero[1] ou talvez nem lá foram.
É que Atahualpa é um cachorro de apartamento, e no condomínio onde moro, que tem 64 apartamentos, deve ter pelo menos uns 40 cachorros (mais dois gatos e dois papagaios, quanto sei), e tirando um outro cachorro que anda até de moto, Atahualpa foge inteiramente ao modelo “cachorro de apartamento”. Desde o primeiro dia que chegou que eu o levo por todos os lados onde posso, deixo-o correr livre pela natureza, acampo com ele, deixo-o comer tudo o que um cachorro pode comer. Ouço horrorizadas expressões de gente moderna, que tem cachorros modernos, movidos à ração:
- Não se pode dar nada além de ração aos animaizinhos! Leite, nem pensar! Tu estás louca – leite lhes dá dor de barriga!– e então lembro dos cachorros da minha infância, que comiam arroz, feijão, salada e carne, como todo o mundo, e aipim com molho, ou pão com manteiga ou sem manteiga, ou fosse lá o que fosse, e viviam longas vidas de 15, 20 anos, o que é velhice extremada para um cachorro. E deixo Atahualpa comer de tudo (em uma das refeições do dia faço questão que ele coma ração, tipo complemento alimentar, assim como as mães fazem as crianças tomarem complexos vitamínicos), e ele começa o dia querendo bolo com leite, bem misturadinho, amassadinho, para não ter o trabalho de mastigar. Há que ser bolo, pois pão, para ele, exibido como é, nem pensar – se bem que noutro dia, num camping, apareceu um cachorro faminto que devorou quase todo o pão que eu tinha, e então, na coisa da competição, Atahualpa se tomou de amores pelo pão, e comeu pão seco com o maior apetite e a maior voracidade. Tirando tais exceções, no entanto, há que ser bolo, e virei uma formiga carregadeira a trazer bolos ingleses do supermercado, sendo que eu quase nunca como bolo e Atahualpa tenha definida preferência pelo bolo inglês, que num instantinho some da embalagem, diante do apetite dele.
Ele adora carne, claro, mas peixe, nem pensar. De peixe, a única coisa que gosta é de lagoas de peixe, onde há plantas aquáticas que ele ataca aos latidos, agarra-as com os dentes, acaba por mergulhar na água, e sabe como é, lagoas de peixe normalmente têm um certo cheiro característico, e depois de tais mergulhos, há que se levar Atahualpa para casa e botá-lo debaixo do chuveiro, outra coisa inconcebível para cachorros de apartamentos, que tomam banho em pet shops sofisticados, são secados com secador e cortam as unhas com tesourinha. Só uma vez um veterinário se meteu à besta e andou cortando as unhas do meu cachorrinho – nunca mais tal ato se repetiu. As unhas de Atahualpa se gastam de tanto andar e correr, seja no cimento das calçadas, seja nos amplos espaços da Natureza, como na beleza desta pousada onde estou nesta sexta-feira-santa, com direito a lagoa de peixe, rio, matas e campinas de grama com muitas flores, e ontem à noite Atahualpa chegou de volta tão molhado e tão cheio de carrapichos, que um dos olhos dele nem abria, tantas foram as camada de carrapicho que foram se sobrepondo umas às outras na sua peluda cara de cachorro safado, e eu tive que ajudá-lo a livrar o olho e o resto do pêlo, e ele estava com tamanha fome que devorou um pote de ração sem o menor constrangimento, ele que faz todo o tipo de frescura para comer só bolo e carne.
Diria que Atahualpa é um cachorro feliz, enquanto o observo, neste momento, em correria e lutas com uma cachorra adulta daqui da pousada, um feixe de músculos a corcovear pela grama, ao lado da lagoa de peixes, coisa que não seria admitida pelos donos dos seus colegas ”de apartamento”. É por isto que digo que acho que ele deve se comportar muito exibidamente diante da sua turma, tipo aquelas crianças que viajam para a Disney e que depois se acham mais importantes que as outras nas salas de aula. Também, pudera! Quantos cachorrinhos têm a vida que ele tem?



[1] Beto Carrero: Parque temático onde adultos e crianças se divertem, no Estado de Santa Catarina/Brasil.

Europa Brasileira 4 - Asco

Estou aqui a lembrar do que me contou o João. Claro que o nome dele não é João, pois não sou tansa o suficiente para botar o nome verdadeiro dele e fazer com que ele incorra no desagrado dos poderosos que poderão se armar com represálias e acabar com o pobre trabalhador blumenauense, oficial pedreiro, que ganha a vida com dignidade construindo as casas e os edifícios para a burguesia. João é jovem, é casado, tem três filhinhos – com seu suado salário comprou um terreninho numa encosta e construiu uma bela casinha também para si, fez varanda, garagem, a mulher dele botou cortinas nas janelas, plantou roseiras na frente – a vida ia que era uma beleza, João pensando em arranjar um cachorrinho para brincar com as crianças, quando veio o Desastre, a Desgraça – e numa tarde de chuva, em novembro de 2008, a casinha e o terreno dele escorregaram morro baixo, e mal e mal ele conseguiu salvar a família. Faz algo como 105 dias que tal ocorreu, e João teve a grande sorte de não ter que ir com a família para um dos muitos abrigos da cidade, onde ocorreram coisas que nem se acredita – um cunhado dividiu com ele a casinha onde morava, e lá também havia duas crianças.
Tá, há 105 dias atrás esta minha cidade estava em tal caos que só estando aqui para acreditar, e faltou comida na casinha onde João se abrigara. Tal não seria problema, claro, as estradas de acesso à cidade mal davam conta de deixar passar os caminhões e caminhões de donativos que chegavam de todo o país e do exterior, tanta comida que agora, passados os tantos 105 dias, o responsável pelo assunto na cidade andou informando que ainda há 200 TONELADAS de donativos estocados. E João foi em busca de comida para a sua gente.

- Amiga – ele me disse – perdi a conta de quantos cadastros tive que fazer aqui e ali para ganhar algo para trazer para as crianças. Se eu conseguisse um quilozinho de arroz que fosse já ficaria feliz – não havia mais nada para as crianças comerem.

Pois vocês acham que João ganhou um quilozinho de arroz? Ganhou nada! E tinha gente ganhando carros tão cheios de comida que as rodas ficavam meio arriadas de tanto peso! Quem será que levou tanta comida para onde?

Sei que João e sua gente nada ganharam, tiveram que se virar com a fome, vendo gente com carros de rodas arriadas de tão lotados passarem defronte da casinha onde estavam abrigados. João é preto, sua família também. Será que isto tem algo a ver? Talvez tenha, talvez não, pois também ouvi diversas pessoas brancas me contando histórias muito parecidas.

Daí fico lembrando de outras histórias ouvidas nestes últimos 105 dias, como o daquele homem que estava num abrigo, e ajudou a descarregar de um caminhão caixas e caixas e mais caixas de sobrecoxa de galinha desossada, pitéu caro e raro, e ficou com água na boca, esperando para comer ao menos umazinha, quando ela fosse servida, só que naquele abrigo nunca se comeu sobrecoxa de galinha desossada. Para onde foram aquelas caixas todas? Para um supermercado, ou talvez para os amplos congeladores de burgueses que fedem?

E lembro mais: da minha amiga Janete (claro que também não sou tansa o suficiente para dar o nome verdadeiro da Janete!), que é da APP de uma escola, e que faz poucas semanas estava na escola e veio uma mãe buscar uma lata de leite para seu bebê. Ela atendeu à mãe, deu o leite para o qual aquela criança estava cadastrada, e juntou ao leite algumas caixinhas de água de coco. Nunca estive naquele abrigo e não sei quem o dirige, mas foi o tal diretor (ou diretora) quem partiu para cima da Janete: não era para dar a água de coco. Janete já teve suas crianças, sabe que elas precisam de suplementos além do leite, e rebateu a proibição – por que não podia dar, se era coisa de doação? Levou uma bronca – não era para dar e pronto. Fico pensando em qual supermercado deve estar sendo vendida aquela água de coco proibida, ou em qual geladeira de qual burguês ela está...

São pequenas amostras do que acontece por aqui por esta cidade de Blumenau. Se fosse contar cada história que acabo sabendo, mil folhas talvez não fossem suficientes.

E agora estão jogando comida fora, comida cuja validade venceu! Quantas toneladas estão jogando? Não sei, mas desta vez não tenho como passar por mentirosa, pois antes de mim a imprensa radiofônica e televisiva noticiou, com as devidas imagens e tudo – disseram-me também que saiu em jornais de papel, mas eu, pessoalmente, não botei os olhos neles, e então não faço afirmações a respeito. Mas o quilo de arroz que foi negado às crianças de João está lá no lixão da cidade, e tantas outras coisas, tantas outras! Quando a imprensa começou a noticiar, as autoridades disseram que era coisinha de nada, comidas que já tinham chegado vencidas há 105 dias atrás. Uma ova que era! Era a comida que foi negada a tantos Joões e tantas crianças, brancas e pretas, decerto para se ver quem podia levar maior vantagem com o que sobrasse.

Sei que você doou, e você também, e você outro decerto também – e não me esqueço daquele homem de Salvador que apareceu na televisão, ganhador de salário mínimo, mas que também conseguiu doar um pouquinho...

Sinto asco de certa parte da humanidade que é capaz de deixar criancinhas sem um quilo de arroz ou uma água de coco, para jogar comida no lixo depois. Ai, que asco que sinto!

Europa Brasileira - Alojamentos 1

Ontem minha cidade de Blumenau foi diferente. De repente, saído de todos os seus esconsos (pois a imagem bonitinha de Europa Brasileira que se mantém QUASE preservada no centro, com fundas camadas de maquiagem, como aquelas bisavós que querem continuar parecendo gatinhas de vinte anos), uma população inteira de desvalidos saiu e até fugiu dos abrigos públicos mantidos nas escolas do município, e veio para praça pública. Quem era essa gente?Eram os trabalhadores de Blumenau, aqueles que passaram grande parte das suas vidas trabalhando para fazer a sua casinha, e que a construíram, a pintaram, a muraram, fizeram jardins, esticaram redes nas varandas para melhor poder conversar com suas mulheres ao por do sol, que nelas criam ou já criaram seus filhos, que tinham aqueles lugarzinhos bonitos, com cortinas na janela e roseiras perto da cerca – e que de um momento para o outro viram a terra desmilinguir, virar gelatina se liquefazendo, e suas casas irem embora dentro de mares de lama, tantas vezes levando junto entes queridos ... e que acabaram nos abrigos públicos de que já falei acima.
Eu fiquei tão perdida no tempo desde que tudo começou que já não sei desde quando eles estão lá (e eu estou aqui, pois também sou uma desalojada), mas sei que foi logo a seguir do dia 20 de novembro. 21? 22? 23? Já não sei, e também não importa o dia, pois dia se emenda em dia, e semana em semana, e agora já está começando o terceiro mês desde que tudo começou – e os trabalhadores da minha terra continuam jogados nos abrigos, sem nenhuma perspectiva de terem sua dignidade restaurada, e com a ordem de desocuparem os abrigos até semana que vem.
As injustiças são tantas e que a gente ouve a cada hora, que é uma coisa arrepiante. O Brasil e o mundo mandaram tantos donativos para cá que ficará difícil gastar tudo, mas alguém fica com muita coisa no meio do caminho. Sei de um abrigo onde há mais de mil sabonetes amontoados numa sala, mas que a pessoa que coordena o abrigo não dá sabonete para determinado abrigado que dele necessita, porque não lhe tem simpatia pessoal. E eu sei bem o quanto esse desabrigado é útil ao seu abrigo; como trabalha, ajuda, limpa, prepara comida ... que será que leva essa chefia de abrigo a ter tanta antipatia? Será que é porque não são da mesma etnia? Olhem os guetos se formando na Europa Brasileira!
As histórias são inúmeras, desde aquele sargento que, faz poucos dias, proibiu a carne para os adultos de determinado abrigo, liberando-a só para as crianças – quando todos sabem que há um congelador chapadinho de carne lá na cozinha, que veio das tantas doações que todo o país mandou. E as roupas sujas de menstruação que se deram às pessoas do abrigo tal, para que as usassem (nada havia sido salvo das suas casas), enquanto gente do Brasil inteiro mandava roupas novinhas novinhas... Começa a pergunta: quem ficou com tantas coisas? E um diretor de escola que resolveu tratar logo os abrigados como porcos: picou aipim com casca e tudo, e misturou um bocado de carne, e sem sal, sem tempero, sem preparo, cozinhou aquela gororoba e só não mandou servir em gamelões porque deve ter ficado com vergonha. E outro diretor de outra escola, que se sente o dono do abrigo (a escola é publica, construída com legítimo dinheiro do contribuinte, e o diretor é um funcionário público, com o salário pago com os impostos daquela gente que está lá desvalida) e que não permite coisas básicas, como pais que vêm de longe para saber a sorte dos filhos, e sequer podem entrar lá para falar com os mesmos... e um outro chefe de abrigo, que vergonhosamente faz com que cada abrigado seja revistado pelos soldados lá de plantão, mesmo que o abrigado tenha apenas ido até à esquina comprar um pão.
A lista das humilhações e falta de respeito é tão grande que nem pensaria em tentar coloca-la aqui. Mas taí uma amostra. E mesmo assim, esses trabalhadores da minha cidade terão que deixar o abrigo dia 30.01. Muitos e muitos já acabaram desistindo dos maus tratos e das humilhações e indo para a casa de amigos, ou voltando para as zonas de risco, assinando documentos em que se declaram auto-responsáveis pelo que vier acontecer, caso algo lhes acontecer nas zonas de risco. Eles têm que se ir, sumir; a vida nos abrigos tem que ser a pior possível, para que os moradores desistam, sumam das estatísticas – é bem diferente construir mil casas do que cinco mil casas – sobra um dinheirão para os bolsos não sei de quem.
Pois é, gente, deve ser por aí. Sei de algumas coisas: o Governo Federal colocou 1 BILHÃO e 700 milhões de reais à disposição dos atingidos – é um dinheiro ENORME. Sei que tal dinheiro abrange, também, construção de pontes, rodovias e correlatos, mas sobra MUITO dinheiro para construir casas para os nossos trabalhadores. Parte será emprestada através de financiamentos, mas parte também será repassada a fundo perdido. E nada se faz.
E o dinheiro que o santo povo brasileiro tirou do seu bolso, do seu contadinho, e mandou para cá? Tenho cá anotado o nr das contas:
BESC Blumenau – Ag. 003 – conta 400.000-3
Banco do Brasil Blumenau – Ag. 095 – conta 400.000-5
Caixa Econômica Federal Blumenau – Ag. 411 – conta 80.000-0.
Cadê tal dinheiro? Era dinheiro para o povo, assim como as outras doações eram para o povo – e sei que tem gente jogando caminhão de doação em beira de estrada porque já não há onde guardá-la. E o meu povo, a minha gente trabalhadora e construtora de Blumenau, a comer lavagem de porco e a usar roupas sujas de menstruação e a não ter acesso a sabonetes, onde há muitos milhares esperando para serem usados?
E tem mais: semana que vem, dia 30.01.2009, rua dos abrigos.
Então ontem o povo foi para a praça, foi pedir explicações e justiça. Eu estava lá de três formas: como observadora, pois sou uma escritora; como militante dos Movimentos Sociais, e como desalojada também. Havia centenas de pessoas diante da prefeitura pedindo justiça, e o prefeito fez o que é de praxe em tais horas: sumiu, se escafedeu. Mas aceitou marcar uma audiência para a próxima terça.
Terça já vai ser dia 27, tão perto do dia 30! Será que é tudo uma questão de empurrar com a barriga? Sei que os nossos trabalhadores vivem grande indignação e não tem o porte de quem se humilha pedindo – a atitude daqueles homens, mulheres e crianças que constroem Blumenau era de digna solicitação de direitos, e eu estava lá e vi tudo. E também me lembro das tantas mensagens que recebi e dos tantos telefonemas que vieram até mim dizendo coisas assim: “Tirei o pouquinho que me era possível e depositei para Blumenau” ,“Depositei 20.000,00 reais para ajudar vocês”, e assim vai. O meu telefone, depois que voltou a funcionar, não parava de tocar: era gente solidária de todo o Brasil, e de Cabo Verde, e de Portugal, e de Londres, e da Irlanda...
Toda essa gente merece satisfação: desde aquele humilde baiano que vi na televisão, depositando o seu troquinho de quem ganha salário mínimo, até aqueles que fizeram grandes doações – como também os nossos trabalhadores, os mais espoliados dos espoliados, sem a menor perspectiva do que lhes vai acontecer.
É hora de obtermos respostas, e muito rapidamente. Eu, por exemplo, fiz meu cadastro de desalojada no dia 16.12.2008 – mais de mês, portanto. Deixei lá o endereço onde estou, o telefone, o endereço eletrônico – e até este momento nem uma vezinha alguém me disse a mínima coisa. Imagino que alguém ao menos deveria dizer: “há que esperar o final das chuvas para se fazer alguma coisa. A senhora, por favor, tenha paciência!” – mas nem isto.
Se não dão satisfação a mim, conhecida como escritora bocuda, que publica em diversos continentes, o que algum dia dirão aos trabalhadores que constroem esta cidade? Decerto dirão algo assim:
- Sai daqui! Passa! Ligeiro! Senão vai ter cadeia! Seus arruaceiros!
E aquelas pessoas que doaram, e doaram, e doaram... estava na hora de alguém contar como as coisas se passam.


Blumenau, 23 de janeiro de 2008.

O menino que flutuava

Era julho de 2006 e um pequeno menino tão lindinho quanto uma pintura de anjo flutuava como que no espaço, liberado que estava da força da gravidade. Ao seu redor havia uma mãe. Decerto que ela era ainda bastante jovem; decerto que o menino tinha traços de anjo porque se parecia com ela. Imagino como essa mãe estava desassossegada, assim cheia de ansiedades, mas sem saber direito quando aquele menino que flutuava irromperia de dentro dela para ocupar os seus braços. No desassossego que a dominava, decerto que ela já passara a ferro o enxovalzinho recém lavado que fizera para aquela criança; decerto que não conseguia parar quieta. Ouvi dizer que todas as mães, um pouco antes de darem à luz, ficam ansiosas e expectantes. Na sua ansiedade o instinto lhe falava, e lhe dizia que logo teria nos braços um menino (ou uma menina?) que faria diferença no mundo. Coração de mãe não se engana, e o instinto lhe dava a certeza sobre o ser especial que abrigava. E ela também sabia o quanto aquela sua criança seria amada na vida. Ansiosa, desassossegada, ela esperava. Alguma dor incerta, algum prenúncio de dor devia lhe dizer que o tempo de ter seu menino nos braços chegara. E, flutuante, o pequeno menino com traços de pintura de anjo também esperava. Já no outro dia estaria à mercê da força da gravidade; já no outro dia estaria sem aquele abrigo onde agora estava, mas teria arranjado outro: o dos braços da sua mãe. Tudo ainda era confuso e indistinto para ele: um menino assim pequenino ainda não sabe decidir, programar, tomar decisões.Um menino ainda tão pequeno só sabe de si que é tempo de nascer e de aprender a respirar e a sobreviver - ainda é o instinto que o comanda. Mas, no mundo líquido onde flutua, seus macios cabelos, que também estão flutuando, já cobrem a semente do cérebro privilegiado que terá; no seu peito, que é delicado quase como o peito de um passarinho, um pequenino coração que muito pulsará pela humanidade já bate violentamente. E, como todas as crianças do universo, no dia anterior ao seu nascimento, o instinto lhe diz que será muito amado. E ele terá a sorte de ser do grupo privilegiado, que terá amor, carinho, comida, mãos protetoras e amparo até tomar o rumo do seu caminho. Muitas e muitas outras crianças que nascerão no dia seguinte não terão a mesma sorte. Isto, acima, é o que era para ser, e foi escrito faz bastante tempo para um menino de verdade que nasceu de verdade e tornou-se grandioso de verdade, e faz gente muito feliz de verdade. Vamos ver agora o que aconteceu de verdade em julho de 2006, no Líbano, quiçá na Palestina:


O menino que flutuava II
Julho de 2006, e a loucura tomava conta do mundo, mas mesmo assim aquela mãe carregava dentro de si o tesouro que era aquele menino com frêmitos de esperança no Futuro dele. Ela vivia no Líbano, mas a mesma história poderia ter sido igual em diversos pontos do mundo. Sua terra estava sendo duramente castigada por mísseis invasores, mas sabe como é, sempre existe a Esperança - até que um dos mísseis derrubou a parede de sua casa e tirou-lhe, dentre tantas outras coisas, a vida. Vizinhos e amigos sobreviventes acudiram-na, socorreram-na, mas ela já tinha morrido. Então era mister salvar o menino que ainda estava dentro dela, e todos se apressaram a fazê-lo. Alguém bateu a foto daquele salvamento, mas já era tarde. Estilhaços haviam entrado na sua barriga que abrigava o menino, e ele também estava morto, com profundo corte nas costas que nunca se agasalhariam nos braços da mãe que também já não existia, que nunca se encostaria numa carteira de escola, que nunca seria o Ser Especial do qual era promessa. Está aí acima a foto, ela diz tudo. O menino que flutuava agora está enterrado debaixo da terra. Por quanto tempo vamos ficar indiferentes?
Blumenau, 24 de Julho de 2006.

O Homem do Pôr-do-Sol e das Borboletas Brancas

(Para Adenilson Teles dos Santos)



Dia 31 de dezembro de 2006, Chaco Paraguaio, hora do pôr-do-sol. É assim que eu quero lembrar-te, meu amigo, no calor daquele Chaco e daquele dia, as janelas do ônibus abertas ao máximo, o vento entrando por elas e querendo nos refrescar, e tua franjinha de seda voando com o vento, a fascinação pela beleza daquele último sol do ano a te acender os olhinhos de estrelas, a máquina fotográfica na mão...

O pôr-do-sol no Chaco Paraguaio é uma das coisas mais bonitas de se ver no mundo – bem como a lua cheia, quando nasce lá, toda alaranjada, como já a vira no passado. Mas aquela que estava chegando era noite de Ano Novo, e não noite de lua, e então havia que apreciar até o último momento o mergulho daquele último sol do ano por detrás do deserto verde que é o Chaco, aquela enorme planície que um dia já fora mar e que ainda é salgada, mas onde incontáveis plantas se adaptaram ao sal e formam um sistema único no mundo, que vai desde o mais fino capim até às grandes árvores barrigudas, que armazenam grande quantidade de água nas suas barrigas para os tempos de grandes secas... Em nenhum outro lugar do mundo existe uma vegetação assim, e era bem lá dentro do Chaco, naquela incipiente noite de Ano Novo que viajávamos, e em nenhum momento me passou pela cabeça que aquele seria o último Ano Novo para ti, meu amigo dileto, e que teus olhinhos de estrelas já não se acenderiam contra a luz do pôr-do-sol em outra virada de ano!
Parece mentira pensar nisto, mas aquele era o último Ano Novo do meu amigo Adenilson Teles, e eu estava tendo o privilégio de estar ali, junto, enquanto o sol se punha e ele ficava de pé no ônibus, a pequena máquina fotográfica junto ao rosto, o curto cabelo de seda voando ao vento, aquela postura de rapaz comportado que o caracterizava se escorando nos encostos dos bancos antigos daquele ônibus antigo, a perseguir o último sol de 2006 para conseguir as melhores fotos possíveis.
Choro, choro muito, agora, quando lembro, mas é assim que quero lembrá-lo, solto e livre dentro do vento, a máquina fotográfica sendo erguida em outros ângulos enquanto o sol teimava em se ir e incendiava todo o horizonte, a franjinha de seda voando, seu rostinho tão bonito todo franzido no esforço do jornalista profissional que não podia perder de registrar a beleza incomensurável daquele pôr-do-sol – só agora, que já faz uma semana que tu te foste, é que volto a pensar de novo, e faço as contas de como a minha vida estava entrelaçada com a tua! E não só a minha: ontem, depois da missa de sétimo dia, fomos, muitos amigos, a um bar, e quando eu disse tal coisa, todos os outros também a disseram: como as nossas vidas estavam entrelaçadas com a tua, meu querido Teles, como cada um de nós precisava tanto de ti, dependia tanto de ti!
Apesar de querer sempre te lembrar na liberdade do vento dentro do Chaco Paraguaio, outras lembranças também vêm, e não há como não te lembrar como alguém onipresente nas nossas vidas, sempre com aquele jeito de bom moço, o porte empertigado atrás de todas as notícias e todos os ângulos, o passinho ágil que não o deixava perder nada, trilhando os caminhos da dignidade e da cidadania, sempre pronto para ajudar a todos, sempre cordial, atencioso e brincalhão ao telefone, sempre pronto a escrever o texto que era necessário naquele momento, sempre pronto a fotografar o evento que aparecesse, sempre do lado do mais pobre, do mais desprotegido, do mais necessitado - ah! meu querido amigo que não faltava em nada do que houvesse em cada vila, em cada assentamento, em cada ocupação – e que estava sempre pronto a estudar mais um pouco de teoria e ir observar o mundo todo por aí! Um ano antes daquele último pôr-do-sol de 2006 preparávamos para, via Roraima, irmos ao Fórum Social Mundial de Caracas/Venezuela – e antes estivemos nos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre – e nos primeiros dias deste ano no qual eu ainda estou vivendo adentramos à Bolívia, em encantada região que não é assim tão distante de La Higuera, e havia tanto verde, e tantos lírios do brejo muy floridos e com tanto perfume que dentro do nosso ônibus a gente se inebriava com aquele aroma que atraía milhares, milhões de borboletas brancas, e tu, emocionado,olhavas e nem fotografavas, pois ficavas pensando que decerto o Che passara por ali... senão, como tanto perfume e tantas borboletas? Meu Teles querido, decerto aquelas tantas borboletas brancas e aquele perfume de lírios do brejo te esperavam nos longos quilômetros daquele primeiro dia de Bolívia como numa saudação, porque há seres que são mágicos e sabem quando alguém não vai voltar para aquele lugar... Ah! Meu amigo tão querido, também é bom te lembrar assim, os olhinhos de estrelas fascinados por aquelas borboletas brancas, o queixo apoiado na mão de cotovelo na janela cheia de vento...
Há que chorar, sim, ao lembrar coisa tão doloridamente doce e dura, porque eu não me conformo de que tenhas ido, meu amigo querido, e eu sei que foste mesmo porque fui lá naquele velório onde parecias dormir tranqüilamente, o rostinho bonito suave e descansado, só que a franjinha de seda não voava ao vento, como quero te lembrar sempre lá naquele dia no Chaco...
Ah! Teles, ah! Teles, nunca mais a vida será a mesma. Lembro das fotos de passarinho que me mandavas, e das outras, algumas das quais até botei na parede da sala da minha casa, eu desfilando junto aos palestinos, desfilando com a bandeira do Iraque – estavas sempre atento a tudo, principalmente a quem sofria e a quem era solidário, e então me aparecias com tais fotos que nunca teria tido se no mundo não tivesse nascido, um dia, um menino que viera para fazer toda a diferença, e nenhum de nós que te conhecíamos poderemos ser, de novo, como éramos antes que entrasses nas nossas vidas.
A vida ficou muito mais difícil agora, meu amigo tão querido, tão difícil que, nós que ficamos, nem sabemos direito como agir.
Então quero te lembrar naquele pôr-do-sol do Chaco, a franjinha de cabelos de seda voando com o vento, teu jeito de bom moço a capturar o último sol do ano na máquina fotográfica, o deslumbrado encanto com o mundo amplo daquele lugar que um dia fora mar, o peito aberto para a emoção e para a vida.
Não dá para te dizer adeus, meu amigo! Tu vais estar sempre tão aqui junto de nós do mesmo jeito que estavas antes, e eu sempre vou fazer de conta que te telefono e pergunto: “Achas que posso botar tal frase no texto tal?” e outras coisas assim, e em todas as tardes de véspera de Ano Novo da minha vida vou te ver, de novo, os cabelos de seda ao vento, a ânsia de captar aquela beleza toda numa fotografia, e vou me lembrar do teu maravilhamento com as borboletas brancas da Bolívia, e pensar na tua lealdade, e na tua coragem (que vou contar num outro texto), e no entrelaçamento da tua vida com a minha, e vou chorar sempre quando a saudade vier, como agora, pois sei tão bem, tão bem, que esta é daquelas saudades raras, saudade que nunca irá passar...

Blumenau, 04 de Novembro de 2007.

A Borboleta Azul

A borboleta maravilhosamente azul morria na calçada, enquanto eu vinha arrastando o meu cansaço extremo. Comovi-me com a mocinha que não se conformava com o desapego à vida por parte da borboleta – afinal, cresci numa rua onde todas as crianças criavam borboletas desde que eram pequenos ovinhos em folhas de couve, e aprendera uma porção sobre elas. Parei para consolar a mocinha:
- Ela agora vai morrer. É assim mesmo. Já deve ter posto seus ovos, e agora vai morrer.
Não é impossível pensar-se que as borboletas possam sentir solidariedade – talvez aquela tenha sentido. O fato é que adejou mais uma vez suas asas maravilhosamente azuis, talvez seu último adejar. Consolei mais uma vez a mocinha:
- Elas vivem poucas horas...
Havia que me ir – uma fisioterapia que se alonga me aguardava um pouco adiante. Mas fui com aquele azul maravilhoso da borboleta dentro dos olhos, aquele último adejar de asas encantadas que vão se transformar em nada, em poeira de calçada... Mesmo assim andava rápido, havia o horário da fisioterapia, bem quando ... não podia ser verdade, decerto eu estava sonhando, assim como aquela borboleta sonhara à vista do seu primeiro sol, poucas horas antes... era verdade, não era? Já não importava o horário, nem a tristeza da mocinha, nem aquele adejar azul com que a borboleta se despedia – lá do outro lado da rua o mundo deixava de ter lógica, virava puro encanto, e creio que me quedei imóvel, paralisada, fascinada demais para qualquer outra coisa – quem vinha lá andando bem alheio ao fascínio que espalhava? Com a beleza e a leveza de um colibri que paira no ar meu Gato Malhado caminhava pela calçada do outro lado da rua, em habitat e horário estranhos para a circulação de colibris-gatos-malhados, uma surpresa total para aquela rua onde uma borboleta azul estava morrendo!
Inundei-me de luz e de alegria; vi um sol do qual já não lembrava; esqueci da dor, das dores, tantas – que importavam as dores se um colibri encantado adejava pela rua onde uma borboleta azul morria? Meu Gato-Malhado-Colibri vinha sério, circunspeto, a ternura dos seus pêlos malhados de prata como que precisando de uma carícia, a leve camisa de fino tecido branco raiado de preto adejando também, como, um pouco antes, as asas da borboleta azul; seu cenho sobrecarregado por tantos cansaços como que pedindo um refrigério; o peito amplo parecendo frágil naquela rua em que a borboleta morria – que poderia eu fazer por ele, para alisar-lhe as rugas da testa, o peso das preocupações, as mágoas tantas, acumuladas sabe-se lá desde quando, talvez desde os tempos em que andava a caçar estrelas em noites de satélites?
Eu não podia fazer nada além de ficar olhando e ficar feliz – lembro-me que em algum momento pensei que aquela postura de estátua fascinada deveria ser constrangedora, e então procurei a tênue proteção de um poste de cimento – o que é que se faz, em horas mágicas assim, em que borboletas azuis desistem da vida e encantados colibris adejam com toda a leveza por calçadas que até então não tinham passado de calçadas comuns? Não havia o que fazer além de ficar amando silenciosamente aquele Gato Malhado que se ia, ficar a olhá-lo até ele sumir na distância, o coração disparado de alegria. Mais tarde, depois da fisioterapia, quando voltei pelo mesmo caminho, fui haurindo em grandes haustos o ar daquela rua, pois ele estava cheio de perfume de flor. Também! Uma rua assim como aquela nunca mais será a mesma, depois da borboleta e do Colibri adejante terem estado ali assim ao mesmo tempo – pena que a borboleta morreu, e que do Colibri só ficou o perfume!

Blumenau, 28 de fevereiro de 2008.